Foram anos lutando contra o áudio no WhatsApp. Primeiro, eu me recusava a mandar e me reservava o direito de não ouvir. Parece meio absurdo dizer isso para alguém nascido depois da Copa de 1994, mas a gente perde muito mais tempo ouvindo uma mensagem do que lendo. Aí não deu para segurar mais. Todo mundo começou a mandar áudios a torto e a direito e eu perderia mais tempo explicando que não ouvia do que ouvindo, efetivamente. Ok, me rendo.

Foi então que tive filho, passei pelo puerpério e comecei a evitar os barulhos nas sonecas do bebê (todo mundo diz para você não fazer isso, mas quando você está cansada e só precisa que o bebê durma, é capaz de lavar cinco panelas sem emitir um único ruído). Então, o bebê lá dormindo no meu colo, eu ali, tentando resolver coisas de trabalho por WhatsApp em algumas conversas diferentes e pam: mensagem de áudio.Pode acusar minha velhice ou minha falta de agilidade, mas nunca na vida consegui apertar o play e colocar o celular no ouvido rápido o suficiente para evitar que o áudio se propagasse pelo quarto, acordasse a criança e me fizesse cogitar suicídio. Respondi a alguns amigos próximos com um delicado: “não mande áudio para a mãe de um recém-nascido”. Especialmente depois das 21h. Não funcionou, meus amigos continuaram mandando suas gravações e, agora, cientes de meu bode, sempre precedidas por: “Lu, desculpe estar mandando áudio, mas…”. Beleza, perdi mais essa.

Aí um belo dia estava eu carregando umas sacolas, uma criança, procurando minha dignidade em algum lugar e precisando muito responder a uma mensagem rápida. “Vou mandar um áudio”, pensei. “Mas isso vai acabar com todas as possibilidades de eu vir a reclamar desse assunto novamente”, pensei depois. Quando vi, já tinha gravado: “Deixei a chave na portaria. É só entrar, colocar a ração nova para ela e trocar a água. A areia não precisa limpar. Obrigada mesmo”. Pronto. Que sensação esquisita. Descobri, enfim, que o prazer do áudio é exclusivo de quem manda. Quem ouve que se dane, você pelo menos comunicou.

Desde então passei a usar a facilidade com parcimônia. O que não me impede de continuar (muito) rabugenta. Primeiro digito: posso gravar? Então espero a pessoa responder que sim. Poucas vezes alguém diz: “sim, mas terei que ouvir só daqui a cinco horas porque tenho mais o que fazer no trabalho”. Na maioria das vezes é sim e pronto. E aí você grava coisas objetivas como “é só iogurte e papel higiênico que está faltando ou você precisa de algo mais do mercado?”

Dia desses, um amigo fez o mesmo comigo. “Posso gravar?” Sim, eu disse, estava de fone, andando na rua, seria fácil ouvir. Aí foi um tal de fulano está gravando, fulano está gravando ainda, fulano não para mais de gravar. Guardei o celular e esqueci o assunto. Quando peguei de novo, 11 minutos. Meu amigo passou 11 minutos com o dedinho ali falando comigo. Não seria muito mais fácil ter me ligado? Aí eu fiquei 11 minutos ouvindo o que ele tinha a me dizer e demoramos quase meia hora para concluir um assunto que acabaria muito mais fácil se fosse uma conversa tradicional. Quem tem tanto tempo livre? Aliás, o que você prefere: um áudio de 11 minutos ou 11 áudios de um minuto? Sei lá… pode ser um e-mail? No fim da tarde eu respondo?

Outra questão: é só apertar o microfoninho que a pessoa que normalmente é assertiva e se comunica bem começa a gaguejar. Suspirar, resmungar. Se distrair com outras notificações no celular. E o áudio não raro chega assim: “Lu… hmm…é que eu estava pensando no que você falou… e… então, é isso mesmo… você tem razão nisso mesmo… vamos ver então o que rola, né?” Jesus. 30 segundos que poderiam ser traduzidos em uma palavra escrita: “Concordo”
E tem ainda um outro tipo de pessoa, a que esquece que tem dedos. Eu digito: “quer almoçar?” A pessoa grava: “sim”. Eu perco a vontade de almoçar quando vejo que veio em formato de áudio, mas insisto: “que horas?” A pessoa grava: “13h”.

Vamos combinar uma coisa? Áudio só vale para dizer coisas que tenham mais de oito caracteres. Especialmente para contar histórias compridas, mas as de 11 minutos deveriam ser ligações. E pergunte antes se a pessoa pode ouvir. Nunca grave coisas importantes que demandem resposta imediata. E, não, estar dirigindo não é uma desculpa. Aliás, se você está dirigindo, guarde o celular na bolsa e pegue-o quando estacionar. O mundo não vai acabar e a segurança no trânsito agradece.

Acho que era só isso mesmo, deixe sua mensagem após o sinal.

 

Escrito Por: Luciana Bugni
Fonte: Universa

 

Mensagem de áudio no WhatsApp: a gente precisa de um manual de etiqueta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *